Pacto Rumo à COP30: o combate ao greenwashing

Greenwashing

Definido como uma prática enganosa em que empresas e governos divulgam informações falsas ou sem comprovação sobre seus benefícios ambientais, o greenwashing é utilizado para criar uma falsa imagem de sustentabilidade. Termos como “ecológico”, “verde” ou “sustentável” são frequentemente usados em propagandas para atrair consumidores e investidores, mesmo quando as ações da empresa não correspondem a essas alegações. Essa estratégia busca capitalizar a crescente preocupação com a adoção de critérios ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês); mas, na realidade, mascara impactos negativos ou omite informações essenciais.

Estudos mostram que os casos de greenwashing têm aumentado globalmente. Entre 2022 e 2023, um quarto dos riscos ESG relacionados ao clima estava ligado a essa prática1. Além do marketing enganoso, o problema ocorre em relatórios de sustentabilidade, nos quais dados podem ser distorcidos, informados de forma incompleta ou omitidos. De acordo com pesquisa realizada pela PwC2, no Brasil 90% dos investidores acreditam que esses relatórios contêm informações não comprovadas. A pressão por aderência a padrões ESG tem levado algumas empresas a supervalorizar iniciativas nessa temática, comunicando iniciativas sem qualquer resultado concreto.

1 RepRisk. “On the rise: navigating the wave of greenwashing and social washing”, 2023. Disponível em: https://www.reprisk.com/news-research/reports/on-the-rise-navigating-the-wave-of-greenwashing-and-social-washing#footnote1.

2 PwC. Pesquisa Global com Investidores 2023. Disponível em: https://www.pwc.com.br/pt/estudos/setores-atividade/financeiro/2024/pesquisa-global-com-investidores-2023.html.


Riscos e consequências


1 RepRisk. “On the rise: navigating the wave of greenwashing and social washing”, 2023. Disponível em: https://www.reprisk.com/news-research/reports/on-the-rise-navigating-the-wave-of-greenwashing-and-social-washing#footnote1.

2 PwC. Pesquisa Global com Investidores 2023. Disponível em: https://www.pwc.com.br/pt/estudos/setores-atividade/financeiro/2024/pesquisa-global-com-investidores-2023.html.

O greenwashing gera desconfiança no mercado e pode levar a consequências jurídicas, como multas e processos por fraude ou corrupção. Empresas que divulgam metas ambiciosas, como descarbonização, sem explicar como serão atingidas, ou que apresentam obrigações legais como se fossem ações voluntárias, estão sujeitas a sofrer danos reputacionais e financeiros. A falta de transparência e regulamentação clara agrava o problema, exigindo maior fiscalização e padrões rigorosos de divulgação.

Para evitar o greenwashing é essencial que empresas adotem uma governança corporativa robusta, assegurando transparência e conformidade com a legislação vigente e, ao mesmo tempo, aderência às boas práticas ESG. No Brasil, a Resolução 193/2023 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) determina que, a partir de 2026, empresas listadas na Bolsa deverão seguir padrões internacionais em relatórios de sustentabilidade.

Na prática, as empresas deverão integrar cada vez mais suas áreas de comunicação, compliance e sustentabilidade para garantir a conformidade técnica e normativa de seus reportes. Assim, fica evidente o papel fundamental do compliance no combate ao greenwashing e no bom comprometimento da empresa com suas metas ESG. Afinal, além de trabalhar para assegurar que as leis e regulamentações sejam corretamente cumpridas, o compliance também deve resguardar a reputação e assegurar as condutas éticas e íntegras para dentro e para fora da empresa

O combate ao greenwashing não só fortalece a credibilidade das organizações, mas também contribui para um mercado mais ético e sustentável. Além disso, iniciativas como capacitação e parcerias com órgãos reguladores são fundamentais para promover a adoção de critérios ESG. De acordo com o diretor de GRC e Privacidade da MRV, Alex de Souza Medeiros, os profissionais de integridade assumem um papel estratégico ao promover a transparência, garantir o alinhamento entre as ações e os compromissos públicos da organização e monitorar a veracidade das informações divulgadas. “Ao atuar na interseção entre ética, conformidade e comunicação, esses profissionais ajudam a mitigar riscos reputacionais, fortalecer a governança e consolidar uma cultura organizacional comprometida com práticas socioambientais autênticas e verificáveis. Combater o greenwashing, portanto, não é apenas uma exigência regulatória ou moral, é uma oportunidade para diferenciar a empresa de forma genuína e responsável”, avalia.

Sistemas de governança corporativa desempenham papel preventivo e ativo no que diz respeito à transparência e divulgação de informações e devem garantir com que todas as publicações estejam de acordo com as exigências dos órgãos reguladores. Conectam-se, portanto, as efetivas iniciativas de proteção ao meio ambiente e a promoção da integridade, da transparência e da ética. A integridade compreende todos os esforços empresariais na direção da agenda ESG e os stakeholders estão cada vez mais interessados no assunto, munidos da possibilidade de verificar qualquer dado e informação publicados.

A diretora de Integridade da Aegea, Ana Paula Carracedo, salienta a importância do papel das áreas de integridade – que, no seu entendimento, devem também garantir que os compromissos ESG assumidos pelas organizações se traduzam em práticas efetivas. “Isso envolve a adoção de processos de due diligence, cláusulas contratuais específicas e mecanismos de monitoramento que assegurem, por exemplo, a inexistência de trabalho análogo ao escravo na cadeia de fornecedores, bem como o alinhamento dos parceiros às normas ambientais e sociais vigentes. Esses controles têm se mostrado fundamentais em apurações conduzidas por órgãos reguladores, reforçando a relevância da função de compliance na efetividade das políticas ESG”, pondera.

A atuação do Pacto Global da ONU no Brasil

Nesse sentido, o Pacto Global da ONU – Rede Brasil conta com a Plataforma de Ação contra a Corrupção, que reúne atualmente mais de 370 organizações que desenvolvem projetos, promovem diálogos construtivos, ações de engajamento, disseminação de conhecimento e boas práticas, e estratégias de compliance, gestão de riscos, governança e transparência, entre outras atividades. É a maior plataforma que trata do tema entre todas as redes do Pacto Global.

Os trabalhos da Plataforma estão estruturados por meio dos Comitês de Projetos em que empresas participantes lideram discussões sobre canais de denúncia e investigações, fundamentos dos programas de compliance e estudo sobre textos acadêmicos que falem sobre a promoção da integridade no meio corporativo. De forma paralela, a Plataforma também busca engajar setores mais sensíveis a riscos de corrupção por meio de duas Ações Coletivas Anticorrupção, voltadas à agroindústria e ao setor de energia elétrica.

Transparência e integridade

A Plataforma de Ação contra a Corrupção também se faz presente em duas outras frentes. Uma delas é o Movimento Transparência 100%, uma iniciativa inédita e ambiciosa que incentiva as organizações a fortalecerem seus instrumentos de transparência corporativa por meio de 5 metas relacionadas às melhores práticas nesse sentido. Com cerca de 80 participantes, a iniciativa é considerada a maior na promoção da transparência corporativa no Brasil.

A outra é sua atuação como representante oficial da Alliance for Integrity no Brasil, uma iniciativa global desenvolvida pela Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ) com o objetivo de fortalecer a integridade e combater a corrupção nos negócios.

Rumo à COP30

Tendo em vista a importância de discutir a transversalidade da integridade corporativa e os esforços contra a corrupção também na agenda climática, o Pacto Global – Rede Brasil incluiu em seu Programa Pacto Rumo à COP30 o um debate transversal e multisetorial sobre o combate ao greenwashing no contexto do setor privado brasileiro. Sob a liderança da Plataforma de Ação contra a Corrupção, o projeto integrou os profissionas de compliance ao debate da COP30 através do compartilhamento de boas práticas de transparência e integridade; o apoio às empresas na comunicação de seus compromissos com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS); e a contribuição para o alinhamento da comunicação das empresas com as normas estabelecidas pelo International Sustainability Standards Board (ISSB) e pela CVM, entre outros.

Na avaliação da gerente-sênior Anticorrupção da Rede, Chantal Castro, isso mostra não apenas a priorização do ODS 16 no país, mas o alto engajamento das empresas com o tema. “Em ano de COP no Brasil, desenvolver uma iniciativa que congregasse transparência na comunicação e integridade dos relatórios em relação aos benefícios ambientais das empresas brasileiras pareceu ideal – e, mais uma vez, as empresas se mostraram muito interessadas”, afirma.

3 CONAR. “Conar Aprova Regras Éticas Para Coibir Greenwashing Na Publicidade”, 27 de Outubro de 2025. Disponível em: http://www.conar.org.br/index.php?noticias&id=1213.

Com esse objetivo, uma série de iniciativas foram realizadas ao longo de 2025, que incluem a produção de publicações específicas, a realização de webinars e atividades de capacitação oferecidas às empresas participantes da Rede Brasil.

O projeto foi norteado, em especial, pelos seguintes ODS e Princípios Universais do Pacto Global da ONU:

ODS


Adotar medidas urgentes para combater as alterações climáticas e os seus impactos.


Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis.


Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável.

Princípios

  • 7: As empresas devem apoiar uma abordagem preventiva aos desafios ambientais.
  • 8: Desenvolver iniciativas para promover maior responsabilidade ambiental.
  • 10: As empresas devem combater a corrupção em todas as suas formas, inclusive extorsão e propina.